domingo, 31 de janeiro de 2010

Mudo


Era um menino, destes que só nos enganam no tamanho. Pouca idade, cigarro de canto de boca,
baba por fazer. Olhos perdidos.

Há tempos era observado, com curiosidade, por toda a sala. Logo ele, iniciador das brincadeiras, riso constante, agora portador daquela angústia em forma de silêncio. Seu olhar era pólo igual, repelia a preocupação, desdenhava da própria condição.

Ela estava ao seu lado, como de costume. A maledicência corria solta, à parte dos dois. Como se todas aquelas línguas entendessem o fim da carne e o começo da alma. Há amores que são feitos mãos; outros, puramente de coração.

Ele tentava manter a feição dura, cavaleiro armado para uma guerra. Sem saber o que enfrentaria. Sem ter uma certeza de vida, ou morte. Ela sentia na sua dor o lamento de quem sofre e grita, sem voz. A dor dela, a impotência de estar longe, mesmo estando perto.

O rosto, até então impassível, contraiu-se em tristeza. As pernas correram, sem direção, só sabendo que precisavam chegar. Num rompante, ela já estava em seu encalço. Viu uma lágrima indecisa, em um cai-não-cai sem término. A lágrima era tão dura quanto uma lança, empunhada por este cavaleiro reticente. Talvez o cai-não-cai de fora fosse o reflexo de dentro, onde ruía lentamente um esqueleto de construção.

Os dois estavam arfantes.
- Você não deveria ter vindo aqui.
- Não é vergonha nenhuma ter alguém com quem andar junto. Ainda que mudos, os dois.

A caminhada seria longa. Eram jovens. As pernas estavam descansadas, e o juízo não era lá muito. Mas era suficiente para fazer aqueles olhos tristes sorrirem.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

In the rain

Desde as três da tarde, o céu fechara; as nuvens, antes esbranquiçadas, fecharam-se num cinza furioso. Mais furiosa estava ela, que viajava pra casa enquanto os outros apenas se deslocavam para seus respectivos bairros. Péssimo dia para esquecer o guarda-chuva. A vida de outros parecia uma sequência lógica diante da sua, sem razão ou proporção. Droga, já estava misturando matemática a devaneios! Talvez seus amigos estivessem certos, não deveria estudar tanto.

Correu o mais rápido que as pequeninas pernas puderam acelerar, na hora. Ah, mas tinha aquela história que dizia que correr na chuva era pior. Andaria então, que jeito? Queria ter um guarda-chuva nem que fosse apenas para rodá-lo na praça vazia, num singingintherain que lhe fizesse esquecer, ao menos, o trânsito, o ponto lotado, a vida, aquela silhueta esguia adiante...

Silhueta esguia?

Não percebera aquele talo de couve-flor caminhando mais à frente. Era ele, de certo; onde mais encontraria alguém com um cabelo tão inacreditavelmente - e irremediavelmente - desarrumado? Tentativas de penteá-lo eram vãs, já que o cabelo era tão anarquista quanto seu dono: sem leis e correntes.

Ele tinha um guarda-chuva. Boa desculpa. Boa nada. Qualquer frase que pensasse terminava nos dois debaixo daquele guarda-chuva. Ah! Atiradagem de primeira e desculpa de última.

As pernas estacionaram, de supetão. A silhueta, lá na frente, agora voltava o caminho.

- Menina, olha teu estado! Vai ficar gripada.

Sorriso involuntário, fantasiado de vergonha pela bronca inesperada. Mal podia ver através dos seus óculos bombardeados dos pingos insistentes. Sorriso do outro lado. Pelamor, não faz aquelas covinhas aparecerem, vai ser meu fim.

- Eu esqueci o guarda-chuva, e acho que São Pedro não vai terminar o trabalho tão cedo.

- Vê se me fala, da próxima vez. Não gosto de ver você, com esse seu tamanho, andando molhada por aí. Agora, fica aqui. Se não sou eu pra cuidar de você...

Recomeçaram a andar. Tudo bem, ainda não cantaria na chuva do jeito que imaginara. Mas
aquele walking-in-the-rain estava de bom tamanho, por hora. A chuva não pararia mesmo... Que continuassem eles, então.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

May Scrap e Johnny Pepper




E num requebrado, tornou-se de May Scrap seu eterno namorado. Eterno sim. E em seu quadrado, pôs-se a suspirar por aquela dama de cetim.
Ela alternava entre Elvis, entre Maysa, e à la Carmem requebrava. Sangue fervia. Ele a almejava, aplaudindo ao final de toda louca melodia.
Ao findar das canções, o espaço esvaziou-se de quase todos corações. Sobraram dois. E sem uma ou duas razões, May aproximou-se dele três segundos depois.
E o music bar foi insuficiente para tanto sangue a pulsar. Tudo tão sem defeito. De ardor encheu-se o ar. Queria-o mais que tudo, queria-o de todo jeito.

Eis que então, beijaram-se de súbito, rangendo os lábios de paixão. Foi intenso, May afagou-se com um lenço, num minuto imenso.

‘Como chamas?’ ‘Chamo-me Johnny Pepper, que há muito tanto amas.’ Clarão forte de luz. ‘É o dono de tantas famas?’ Ele ignorou com um beijo ao som do blues.
Como toda artista, tinha May um camarim na periferia de sua vista. Como num cinema. Johnny, um ensaísta, ofereceu um Vogue para uma noite plena.
Uma noite indecente foi embalada pela passion de um casal carente. May disse please. E em sua mente, Johnny Pepper sossegou-a até sorrir feliz.

Amanheceu, e o coração de Johnny de sua musa se esqueceu. Because the love logo se move quando em tudo chove.

May voltou ao Rio.
Johnny sorriu.
May fugiu do norte;
Não teve sorte.
May cantou Come Back
E abriu um leque
Para lembrar-se de Pepper.

sábado, 21 de novembro de 2009

Namoradinha do Brasil

  Era uma vez uma garota dentro de um caminhão. Tinha um volante no horizonte e um motor no coração. Não entendia que na vida lhe faltava constância. Vivia cheia de liberdade, até que ela gerou-lhe a ânsia. Não ânsia de viver ou de se libertar. Era ânsia de paz ter, ânsia de ser um lar. Fazia paradas para vomitar. Sentia-se mareada só em sentir o cheiro do mar. Lentamente, um mundo com um único habitante fazia-se em sua barriga bronzeada. Sutilmente, uma vida se formava deixando-a despedaçada. A vida lhe trazia medos; lágrimas escorriam-lhe pelos dedos. Sua alma era viajante, não tinha outro dom. Percorria a vida cantando sem perder o tom: "Batom na boca, sangue no quadril. Naturalmente, namoradinha do Brasil".
  Até que um dia, seu corpo desabou; um vento forte soprou e a bolsa estourou. Pode não parecer, mas até que doeu. Um novo humano saiu e gemeu. Agora era uma mãe, e um pai também. Sabia que para ela a vida não diria amém. A criança era bonita e tinha os olhos azuis. Viveria uma vida esquisita em meio ao som do blues.
  A mãe não tinha cuidado. Vivia em função de um ou outro namorado. Gostava das noitadas e de toda boemia. Gozava nas viradas de ano, e era só poesia. E quando (se) acabava, pedia mais, pedia mais, pedia mais. Dizia please. Mas, bem lá na verdade, queria bis.
  E o bebê sorria. Sorria com sorriso de sorrir fotografia. A vida lhe era festa e o sangue lhe fervia. Fizera oito anos e odiava maresia. Numa noite sombria punha-se a rodar.
  Até que um dia, veio-lhe a fúria e a incomunal rebeldia. O garoto fez-se injúria para uma vida que ruía. Fizera 15 anos e cansara-se das noitadas à beira-mar. Deu adeus as namoradas e ao seu nômade lar. A vida lhe chamou e ele foi lá.
  A mãe o ignorou. Disse 'vai', o filho foi e lá voou. Em seu caminhão pôs-se a dormir. E, com um novo amante, a sorrir.
  Até que acabou-lhe a sorte. A Garota do Caminhão chegou em seu leito de morte. Um câncer lhe destruiu o coração em um só corte. Morreu abraçada a foto do filho fugido. E ele, no Sergipe, nunca soube que sua mãe tinha morrido.

domingo, 1 de novembro de 2009

A pergunta

Era um domingo de manhã, entre tantos que esta família já havia passado. A rotina não mudara: o pai lia o jornal, sentado no sofá, a mãe tricotava uma nova roupa para o pequeno que viria logo menos, e a filha caçula brincava com os blocos de montar no tapete. Uma típica família respeitável.

- Mãe, o que é sexo?

A mãe derrubou as agulhas e a linha no chão. O pai largara o jornal imediatamente. Meu Deus, sua pequena, falando em sexo, nessa idade? Esse mundo está perdido!

- Filhota - o pai ainda estava sobressaltado -, onde foi que ouviu isso?
- Na escola, ué.

"Ok, aja naturalmente. Ela tem seis anos. Não vai entender muita coisa. É só enrolar com o papo da sementinha e, tenho certeza, ela vai parar com isso"

- Então, é assim: o papai, quando viu que o amor que tinha pela mamãe era muito, muito grande, plantou uma sementinha dentro da barriga dela. Essa sementinha cresce feito o feijão que você plantou na escola, lembra? Vai vindo folhinha por folhinha...
- Pai, isso eu sei. Eu quero saber o que é sexo!
- Amorzinho - a mãe tentava interceder, diante do desespero evidente do pai -, posso conversar com o seu pai, pra eu já te contar o que é... É... Sexo?
- Tudo bem, vai. Mas, quando eu voltar, vocês vão me contar o que é sexo?
- Vamos, eu prometo.

A filha saiu batendo o pé. Os pais se entreolharam, assustados.

- Querido, acho que já tá na hora de ter esta conversa.
- Não mesmo! Eu só fiquei sabendo quando tinha uns dez anos. Tá cedo demais. E, além disso, essa escola, hein?
- Tava pensando nisso, também.
- Ah, não, ela tá voltando.
- Amor, seja natural. Não é um assunto tão difícil assim...

A pequena desceu a escada, a expressão normalizada.
E um caderno debaixo do braço.

“Ah, ela deve ter a explicação nesse caderno. Tão pequena, já estudando essas coisas? Pô, é a primeira série...”
“Até ontem ela nem sabia ler... Será que eu perdi tanto assim do crescimento da minha filha?”

- Mãe, é por causa disso aqui.

E para alívio geral, os pais constataram que o sexo que a filha se referia era apenas isto:

Sexo: ( ) masculino ( ) feminino

- Mas, mãe, onde eu assino?
- ...

sábado, 10 de outubro de 2009

Mentalmente.

Ele realmente acreditava que aquela seria a última vez. Viera ensaiando mentalmente as palavras que há semanas formulou. Desculpa, mas me explicar não é do meu código de conduta. E eu só quero que o nosso terminar não seja um desgostar. Péssimo. Só faltou o não é você, sou eu. Ele nunca fora bom, tanto com términos quanto com inícios. Com ela, tudo havia sido diferente. Ele não a procurou. Ele não a quis. Ela correu pro ataque.

Não que eu não goste dela, tentava replicar, ainda mentalmente. É questão de ego. O valor maior está na própria conquista. Engoliu seco, para continuar. E, neste caso, o conquistado fui eu.

De certo, não formavam um casal comum. Amigos lhe perguntavam como ele conseguira uma namorada tão geniosa. Como se eu soubesse!, pensava ele. Era tudo culpa do acaso. A festa, a bebida, a garota. Ele estava no lugar errado, na hora errada. Talvez fosse apenas uma coincidência infeliz.

Olha, lá esta ela. Bonita, do seu jeito. Birrenta, como nascera. Ela, toda. Sua?

- Você demorou. Droga, eu já disse que não gosto de esperar.

E ele não soube explicar nem como, nem o porquê. Aquela atração-repelida, olhar de fúria recolhida, o sorriso entrecortado pela bronca... Tão familiar. Tão ela. Tão sua.

Todos aqueles pensamentos se desfizeram em nuvens. Peculiarmente, ele a amava. Mesmo que não mentalmente.

sábado, 3 de outubro de 2009

O (des)amor nos tempos da gripe suína

_Me deixa ser o dono do teu coração.
_Ele já tem dono!
_Me deixa ser o gerente, então.

Foi numa festa de aniversário em que os dois se conheceram. Vi tudo. Eu estava lá vagando por entre os corredores daquele tão grande apartamento em Itapuã. A música era de carnaval antigo, desses que só se vê na televisão. Ah, só para constar, eu odeio televisão. Eu nunca apareço bem nela. Acho que ela me engorda. Voltemos ao casal:

_Olha que a gerência é cargo de grande responsabilidade!
_E olha que vê-se em mim a representação humana da confiança.
_Quero só ver.


Despiram-se dois meses mais tarde por menos de meia hora. Despiram-se e atacaram-se no estacionamento da universidade. Que vergonha! Eu estava lá acompanhando tudo, com cautela para não tocar nos dois, numa distância segura. Ele não queria porque ele era a representação humana da paciência em Salvador. Ele só queria ser gerente do coração. Eu bem que o avisei. Olha, não estranha, mas essa menina é cheia de manha. Ele pareceu ignorar-me. Adiantemos e vamos para alguns meses mais tarde.


_Olha...
_Estou olhando.
_Não é olha de olhar. É olha de escutar.
_Hã?
_Escuta.
_Estou escutando.
_Bom que esteja.
_Fala logo que eu tenho aula de Metodologia Científica.
_Estou grávida.
Ele deu o silêncio como resposta e olhou para o chão. Havia duas formigas carregando um pedaço verde de folha. As duas começaram a disputar pela insignificante folha. Ela partiu-se em duas e cada uma ficou com uma parte. O silêncio se quebrou com sua voz áspera arranhando-lhe a garganta e nadando na atmosfera:
_Tira.
A lágrima ameaçou cair do rosto caboclo da gestante. Ele repetiu:
_Tira.
Ela tentou dar-lhe um tapa. Mas o sangue não conseguiu chegar aos braços. Ele repetiu:
_Tira.
Ela não tirou. E foi aí que eu entrei.


Alguns dias depois, na maca do hospital, ela estava deitada e desacordada. O filho morto na barriga, assassinado por mim, o vilão da história segundo a televisão. Ela não tinha lá muita respiração, na verdade, estava morta. Só me lembro que também vi o genitor daquela tão nati-morta criança naquele mesmo hospital. Mas ele sobreviveu. E, uma semana depois, estava naquele mesmo apartamento em que os dois se conheceram, numa outra festa, com uma outra garota. Ah, eu odeio televisão, só para constar.