domingo, 29 de agosto de 2010

Filme Preferido


- Desculpa, eu sei que é tarde.
- Não, não se desculpa. Gosto dos teus telefonemas, eles me amenizam.
- O quê?
- Nada, pode falar.
- Não tenho nada para falar. Só queria te ouvir a voz, só queria alguém para me ouvir a voz, entende?
- Entendo.
- Aposto que não entende.
- Entendo, entendo sim. Como acha que...
- Qual é teu filme preferido?
- O quê?
- Perguntei qual é teu filme preferido.
- Mas o que isso tem a ver com o que a gente estava falando?
- Nada, responde logo.
- Hm, acho que...
- Eu acho que você nem filme preferido tem.
- Claro que tenho. Todo mundo tem.
- Você é diferente de todo mundo.
- Hã?
- Eu disse que você é diferente de todo mundo.
- O que quer dizer com isso?
- Nada.
- Você quer dizer algo com isso, sim. Eu sinto.
- Não quero dizer nada com isso. Só quis dizer o que eu disse. Larga de ser bobo.
- Você é muito estranha, diz frases soltas.
- Todas as frases do mundo são soltas.
- O quê?
- Não seriam frases do mundo se não fossem soltas.
- Pois eu acho que você anda muito estranha.
- Pois eu acho que você ainda não respondeu a minha pergunta.
- Que pergunta?
- Já esqueceu?
- Ah, a do filme preferido.
- Sim, qual é?
- Acho que é...
- Você acha? A ideia de filme preferido seu é uma suposição?
- O quê?
- Você não tem um filme preferido, sabia desde o começo. Se apoia por meio de argumentos idiotas para definir suas preferências.
- O que você está falando?
- É seu filme preferido, seu objeto cinematográfico de maior amor. Não é possível que você se esquive diante de uma pergunta tão boba. Não é possível que você não saiba respondê-la. Não é possível que você apenas ache que seu filme preferido é seu filme preferido.
- Deixa de ser neurótica.
- Não me chama de neurótica.
- Isso é um telefonema ou uma sessão de análise?
- Cala a boca e pensa que em vez de eu ter perguntado qual teu filme preferido, eu tivesse perguntado, sei lá, qual é tua pessoa preferida. Você diria "ah, acho que é minha mãe"?
- Não.
- Diria "é minha mãe", não é? Assim, firme, com certeza.
- Diria que é você.
- Oi?
- Nada. Posso responder a pergunta?
- Que pergunta?
- A do filme preferido.
- Achei que você tivesse desistido de responder.
- Eu não desisto, eu respondo.
- Então responde.
- Meu filme preferido é...
- Meu Deus, já são três da manhã.
- Deixa eu responder. Me pertubou tanto para que eu respondesse, agora deixa eu responder.
- Adoraria saber teu filme preferido, mas já são três da manhã no meu relógio.
- Entendo.
- Sério. E amanhã preciso acordar cedo. Beijo, tchau.
- Por essas e outras que você não merece...
- O quê? Não mereço o quê?
- Saber qual é meu filme preferido.

sábado, 31 de julho de 2010

Eu Te Amo

Contos Eróticos: Eu Te Amo
  Ficou ali por cima dos lençóis e edredons manchados de batom e violência, a contemplar o corpo nu daquele estrangeiro, o sapato dela a pisar no sapato dele, cigarro jogado ao chão. Ela escorria os dedos no pescoço deitado, pressionando as unhas longas, as mãos descendo, arranhando-lhe o peito branco. Ele dormia o sono dos saciados, quieto como pedra, leve como pena. Ela já ia saindo da cama, os seus pés a pisar nas pernas dele, mas no rádio ao lado tocou Eu Te Amo e ela ficou, só para ouvir e nada mais. Cantou baixinho junto com o som do rádio, fazendo paradas rápidas para uma ou outra dose da tequila que dormira por cima do criado-mudo. Abajur a emitir luz fraca e tosca inutilmente, uma vez que o sol já chegara e seus raios, ainda que preguiçosos, percorriam pelo quarto pequeno. Ela, com a mão a acariciar o corpo quente do estrangeiro, lembrou-se de outrora, da madrugada, quando tudo perdeu sua forma e encontrou-se por debaixo das ranhuras da noite eterna. E os lábios esboçaram um sorriso desses de saudade que não se vê em cinema ou televisão. Eu Te Amo acabou e ela pôs os pés para fora da cama. Eles, os pés, tocaram o chão e queimaram-se com o cigarro. Ela não ligou, pôs as mãos na face harmônica dele e aproximou-se dos lábios parados, como se para se despedir. Mas os lábios se mexeram: "Fica", disseram eles.
  Deus, por quê? "Olha", tinha dito ela no dia anterior, "nada é amor; vodka é uma coisa, guaraná é outra coisa, e amor não é nenhuma delas". Ele não poderia dizer fica, ninguém tem o direito de dizer fica. Porque as noites, mesmo sendo eternas, passam - e o que passa não volta nem fica, pois agride, inflama, dói. Ela chorando, não pelos olhos, mas por dentro, na parte da alma, não na parte seca como sol do norte e fria como copa de bordeaux. Então, ela resolve virar-se, fingir que ele não está lá, com seus lábios trêmulos, face límpida e corpo de mochileiro. Pôs a liga e abotoou o sutiã. Fica, tinha dito ele. Não podia, não devia, não era certo - mas não era errado. Ela era ela, a vagar pelas noites, a descobrir novos mundos. Lábios tremulos, face límpida e o corpo de um estrangeiro a amarraria. Céus, por que pensava? Por que sequer cogitara a ideia de ficar? "É suicídio", pensou, "matarei a mim mesma para dar lugar a uma outra".
  Ela resolveu deixar que uma lágrima saísse-lhe dos olhos, caindo da face, chegando no corpo do estrangeiro. "Não chora", falou o homem; "Fica". Ela aborreceu: lhe deu um beijo violento, desses que mordem o lábio como um cão faria, enfiou-se num vestido preto e puxou a maçaneta que os separava do resto do mundo.
  "Não", disse ela pouco antes de adentrar no exterior do quarto. Tirou com força a última lágrima do olho castanho e saiu correndo, descalça e tonta, rumo a si.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sofia


Sofia sofria. Sofia sofria por não sofrer, por viver a vida escrita. Sofia tomava Domecq da adega nobre da cidade, quando queria tomar vinho barato em motel de beira de estrada enquanto bailava e gargalhava ao som de Amy Winehouse na vitrolinha. Sofia usava Louis Vuitton, quando queria usar jeans rasgado comprado com pressa na estação onde pegaria o trem que rumava o reveillon de Copacabana. Sofia escrevia poesia, quando queria escrever diário algum que valha a pena.
Mas, apesar disso e apesar daquilo, Sofia sorria.
O telefone tocou. Era ninguém - só um moço. Não um qualquer, mas um que almejava o pequeno coração da menina Sofia. Ela ignorou - deixou o telefonema morrer-se. De correntes para prendê-la bastava a da sua vida escrita.
 Sofia deitou e olhou o teto. Era madeira, jacarandá da Amazônia, talvez. Queria olhar para outro teto - o do céu estrelado. Fechou os olhos e os abriu. E deparou-se com um céu pontilhado. Ironia da imaginação. De repente, percebeu que algo a incomodava, espetando-a levemente, e um estranho cheiro de natureza atingiu-lhe o nariz. Surpresa, Sofia percebeu que não mais em seu apartamento estava. Atordoada, correu ao encontro das luzes dos carros que cortavam a noite. E percebeu que não aquilo era ironia da imaginação. Podia sentir que era realidade - realidade que a tocava e a afetava. Viu uma grande placa verde que com letras brancas dizia: "Bienvenido a Buenos Aires". Olhou confusa para os lados, o vento e os carros passando, um pequeno jardim ao fundo.
   - Está fazendo o quê, maluca? - perguntou uma garota ruiva com as mãos nos ombros de Sofia.
Pálida, olhou para as próprias mãos. Numa delas, uma garrafa meio cheia ou meio vazia de um vinho qualquer, desses que vendem em padaria. O rosto pasmo deu lugar a um sorriso há muito adiado. Não entendia nada, mas estava como sempre quis estar: livre.

sábado, 13 de março de 2010

Ying Yang

Ele não dispensava a cerveja de sexta-feira. Ela era movida a café.

Ele amava os filmes trash-pow-bang. Ela só ia ao cinema para ver algo cult.

Ele sonhava em ter cinco filhos e ensiná-los a atirar de bodoque, jogar futebol e paquerar as garotinhas. Ela queria um filho único - pra ela, pro mundo.

Ele esquecia datas e aniversários. Ela fingia que não lembrava, mas tinha suas sobrancelhas arqueadas para qualquer ah em tom sonso.

Eles brigavam, tanto quanto um homem e uma mulher podem brigar. Ele dizia que seu maior defeito era amá-la. Ela dizia que o amava com todos seus defeitos.

Ninguém acreditava neles. Nem eles mesmos, se isso servisse de consolo. Opostos se distraem, dispostos se atrem - é o que diziam, os abutres de plantão e o Teatro Mágico.

Porém, como cada relógio - numa maquinaria perfeita - tinha suas engrenagens, o amor deles era essa bomba-relógio. Perfeito perigo, veneno doce. À noite, debaixo das cobertas, ela dizia que não entendia como eles podiam se amar. Pela manhã, ele dizia que não havia como não se amarem.

E nesses opostos, que muitas vezes se distraiam com desigualdades, estava o encaixe perfeito de um eles, sem caber de imaginar. Ele nem desconfiava que tinha um pedaço dela. Ela sorria ao ver que ele estaria sempre consigo.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Butterflies

Silêncio ensurdecedor, mesmo com Gal na vitrolinha. Ambos calados, a chuva fina tocando o chão. Viviam tão dispersos, olhavam para o lado demais... Enganaram-se, não por mal, na contramão. Tinham a certeza de que alguém destruiria seu jardim. Mas passaram-se 3 anos e o castelo que com pedras da serra construiram ainda estava (quase) intacto. 3 anos, meu Deus, uma eternidade! E, como num balé mau ensaiado, separaram-se. Como? Só afastaram-se. Puro e simplesmente, afastaram-se. "Teu castelo só me prendeu, viu?".
Conheceram-se aonde, afinal? No Rio de Janeiro. Verão, fevereiro ardente, noites ao funk. Viram-se num desses batidões. Beijaram-se entre uma ou outra cerveja. "Você ainda vai me amar amanhã ao meio-dia?". Na manhã seguinte, num albergue barato em Ipanema, ela amanheceu vomitando os horrores. Exagerou no álcool, todos sabiam. Ele estava lá, ajudando-a. Foi aí que uniram-se - e uniram-se mais ainda quando ela passou mal pela segunda vez. Quando visitaram a bateria da Mangueira, já estavam completamente apaixonados.
E agora estavam lá, tentando arrumar desculpas para separarem-se. 
"I wanna be away from here, quando essa bomba explodir..."
Ela não suportou - desatou a chorar e correu de encontro a porta vermelha daquele pequeno apartamento de Blumenau. Mas, antes que ela chegasse onde queria, ele a segurou pelo braço:


- Dê-me uma chance e eu tornarei o mundo mais belo novamente.

De repente, o mundo ficou mais belo novamente.
"Butterfly, baby, well you've got it all".

domingo, 31 de janeiro de 2010

Mudo


Era um menino, destes que só nos enganam no tamanho. Pouca idade, cigarro de canto de boca,
baba por fazer. Olhos perdidos.

Há tempos era observado, com curiosidade, por toda a sala. Logo ele, iniciador das brincadeiras, riso constante, agora portador daquela angústia em forma de silêncio. Seu olhar era pólo igual, repelia a preocupação, desdenhava da própria condição.

Ela estava ao seu lado, como de costume. A maledicência corria solta, à parte dos dois. Como se todas aquelas línguas entendessem o fim da carne e o começo da alma. Há amores que são feitos mãos; outros, puramente de coração.

Ele tentava manter a feição dura, cavaleiro armado para uma guerra. Sem saber o que enfrentaria. Sem ter uma certeza de vida, ou morte. Ela sentia na sua dor o lamento de quem sofre e grita, sem voz. A dor dela, a impotência de estar longe, mesmo estando perto.

O rosto, até então impassível, contraiu-se em tristeza. As pernas correram, sem direção, só sabendo que precisavam chegar. Num rompante, ela já estava em seu encalço. Viu uma lágrima indecisa, em um cai-não-cai sem término. A lágrima era tão dura quanto uma lança, empunhada por este cavaleiro reticente. Talvez o cai-não-cai de fora fosse o reflexo de dentro, onde ruía lentamente um esqueleto de construção.

Os dois estavam arfantes.
- Você não deveria ter vindo aqui.
- Não é vergonha nenhuma ter alguém com quem andar junto. Ainda que mudos, os dois.

A caminhada seria longa. Eram jovens. As pernas estavam descansadas, e o juízo não era lá muito. Mas era suficiente para fazer aqueles olhos tristes sorrirem.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

In the rain

Desde as três da tarde, o céu fechara; as nuvens, antes esbranquiçadas, fecharam-se num cinza furioso. Mais furiosa estava ela, que viajava pra casa enquanto os outros apenas se deslocavam para seus respectivos bairros. Péssimo dia para esquecer o guarda-chuva. A vida de outros parecia uma sequência lógica diante da sua, sem razão ou proporção. Droga, já estava misturando matemática a devaneios! Talvez seus amigos estivessem certos, não deveria estudar tanto.

Correu o mais rápido que as pequeninas pernas puderam acelerar, na hora. Ah, mas tinha aquela história que dizia que correr na chuva era pior. Andaria então, que jeito? Queria ter um guarda-chuva nem que fosse apenas para rodá-lo na praça vazia, num singingintherain que lhe fizesse esquecer, ao menos, o trânsito, o ponto lotado, a vida, aquela silhueta esguia adiante...

Silhueta esguia?

Não percebera aquele talo de couve-flor caminhando mais à frente. Era ele, de certo; onde mais encontraria alguém com um cabelo tão inacreditavelmente - e irremediavelmente - desarrumado? Tentativas de penteá-lo eram vãs, já que o cabelo era tão anarquista quanto seu dono: sem leis e correntes.

Ele tinha um guarda-chuva. Boa desculpa. Boa nada. Qualquer frase que pensasse terminava nos dois debaixo daquele guarda-chuva. Ah! Atiradagem de primeira e desculpa de última.

As pernas estacionaram, de supetão. A silhueta, lá na frente, agora voltava o caminho.

- Menina, olha teu estado! Vai ficar gripada.

Sorriso involuntário, fantasiado de vergonha pela bronca inesperada. Mal podia ver através dos seus óculos bombardeados dos pingos insistentes. Sorriso do outro lado. Pelamor, não faz aquelas covinhas aparecerem, vai ser meu fim.

- Eu esqueci o guarda-chuva, e acho que São Pedro não vai terminar o trabalho tão cedo.

- Vê se me fala, da próxima vez. Não gosto de ver você, com esse seu tamanho, andando molhada por aí. Agora, fica aqui. Se não sou eu pra cuidar de você...

Recomeçaram a andar. Tudo bem, ainda não cantaria na chuva do jeito que imaginara. Mas
aquele walking-in-the-rain estava de bom tamanho, por hora. A chuva não pararia mesmo... Que continuassem eles, então.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

May Scrap e Johnny Pepper




E num requebrado, tornou-se de May Scrap seu eterno namorado. Eterno sim. E em seu quadrado, pôs-se a suspirar por aquela dama de cetim.
Ela alternava entre Elvis, entre Maysa, e à la Carmem requebrava. Sangue fervia. Ele a almejava, aplaudindo ao final de toda louca melodia.
Ao findar das canções, o espaço esvaziou-se de quase todos corações. Sobraram dois. E sem uma ou duas razões, May aproximou-se dele três segundos depois.
E o music bar foi insuficiente para tanto sangue a pulsar. Tudo tão sem defeito. De ardor encheu-se o ar. Queria-o mais que tudo, queria-o de todo jeito.

Eis que então, beijaram-se de súbito, rangendo os lábios de paixão. Foi intenso, May afagou-se com um lenço, num minuto imenso.

‘Como chamas?’ ‘Chamo-me Johnny Pepper, que há muito tanto amas.’ Clarão forte de luz. ‘É o dono de tantas famas?’ Ele ignorou com um beijo ao som do blues.
Como toda artista, tinha May um camarim na periferia de sua vista. Como num cinema. Johnny, um ensaísta, ofereceu um Vogue para uma noite plena.
Uma noite indecente foi embalada pela passion de um casal carente. May disse please. E em sua mente, Johnny Pepper sossegou-a até sorrir feliz.

Amanheceu, e o coração de Johnny de sua musa se esqueceu. Because the love logo se move quando em tudo chove.

May voltou ao Rio.
Johnny sorriu.
May fugiu do norte;
Não teve sorte.
May cantou Come Back
E abriu um leque
Para lembrar-se de Pepper.

sábado, 21 de novembro de 2009

Namoradinha do Brasil

  Era uma vez uma garota dentro de um caminhão. Tinha um volante no horizonte e um motor no coração. Não entendia que na vida lhe faltava constância. Vivia cheia de liberdade, até que ela gerou-lhe a ânsia. Não ânsia de viver ou de se libertar. Era ânsia de paz ter, ânsia de ser um lar. Fazia paradas para vomitar. Sentia-se mareada só em sentir o cheiro do mar. Lentamente, um mundo com um único habitante fazia-se em sua barriga bronzeada. Sutilmente, uma vida se formava deixando-a despedaçada. A vida lhe trazia medos; lágrimas escorriam-lhe pelos dedos. Sua alma era viajante, não tinha outro dom. Percorria a vida cantando sem perder o tom: "Batom na boca, sangue no quadril. Naturalmente, namoradinha do Brasil".
  Até que um dia, seu corpo desabou; um vento forte soprou e a bolsa estourou. Pode não parecer, mas até que doeu. Um novo humano saiu e gemeu. Agora era uma mãe, e um pai também. Sabia que para ela a vida não diria amém. A criança era bonita e tinha os olhos azuis. Viveria uma vida esquisita em meio ao som do blues.
  A mãe não tinha cuidado. Vivia em função de um ou outro namorado. Gostava das noitadas e de toda boemia. Gozava nas viradas de ano, e era só poesia. E quando (se) acabava, pedia mais, pedia mais, pedia mais. Dizia please. Mas, bem lá na verdade, queria bis.
  E o bebê sorria. Sorria com sorriso de sorrir fotografia. A vida lhe era festa e o sangue lhe fervia. Fizera oito anos e odiava maresia. Numa noite sombria punha-se a rodar.
  Até que um dia, veio-lhe a fúria e a incomunal rebeldia. O garoto fez-se injúria para uma vida que ruía. Fizera 15 anos e cansara-se das noitadas à beira-mar. Deu adeus as namoradas e ao seu nômade lar. A vida lhe chamou e ele foi lá.
  A mãe o ignorou. Disse 'vai', o filho foi e lá voou. Em seu caminhão pôs-se a dormir. E, com um novo amante, a sorrir.
  Até que acabou-lhe a sorte. A Garota do Caminhão chegou em seu leito de morte. Um câncer lhe destruiu o coração em um só corte. Morreu abraçada a foto do filho fugido. E ele, no Sergipe, nunca soube que sua mãe tinha morrido.

domingo, 1 de novembro de 2009

A pergunta

Era um domingo de manhã, entre tantos que esta família já havia passado. A rotina não mudara: o pai lia o jornal, sentado no sofá, a mãe tricotava uma nova roupa para o pequeno que viria logo menos, e a filha caçula brincava com os blocos de montar no tapete. Uma típica família respeitável.

- Mãe, o que é sexo?

A mãe derrubou as agulhas e a linha no chão. O pai largara o jornal imediatamente. Meu Deus, sua pequena, falando em sexo, nessa idade? Esse mundo está perdido!

- Filhota - o pai ainda estava sobressaltado -, onde foi que ouviu isso?
- Na escola, ué.

"Ok, aja naturalmente. Ela tem seis anos. Não vai entender muita coisa. É só enrolar com o papo da sementinha e, tenho certeza, ela vai parar com isso"

- Então, é assim: o papai, quando viu que o amor que tinha pela mamãe era muito, muito grande, plantou uma sementinha dentro da barriga dela. Essa sementinha cresce feito o feijão que você plantou na escola, lembra? Vai vindo folhinha por folhinha...
- Pai, isso eu sei. Eu quero saber o que é sexo!
- Amorzinho - a mãe tentava interceder, diante do desespero evidente do pai -, posso conversar com o seu pai, pra eu já te contar o que é... É... Sexo?
- Tudo bem, vai. Mas, quando eu voltar, vocês vão me contar o que é sexo?
- Vamos, eu prometo.

A filha saiu batendo o pé. Os pais se entreolharam, assustados.

- Querido, acho que já tá na hora de ter esta conversa.
- Não mesmo! Eu só fiquei sabendo quando tinha uns dez anos. Tá cedo demais. E, além disso, essa escola, hein?
- Tava pensando nisso, também.
- Ah, não, ela tá voltando.
- Amor, seja natural. Não é um assunto tão difícil assim...

A pequena desceu a escada, a expressão normalizada.
E um caderno debaixo do braço.

“Ah, ela deve ter a explicação nesse caderno. Tão pequena, já estudando essas coisas? Pô, é a primeira série...”
“Até ontem ela nem sabia ler... Será que eu perdi tanto assim do crescimento da minha filha?”

- Mãe, é por causa disso aqui.

E para alívio geral, os pais constataram que o sexo que a filha se referia era apenas isto:

Sexo: ( ) masculino ( ) feminino

- Mas, mãe, onde eu assino?
- ...

sábado, 10 de outubro de 2009

Mentalmente.

Ele realmente acreditava que aquela seria a última vez. Viera ensaiando mentalmente as palavras que há semanas formulou. Desculpa, mas me explicar não é do meu código de conduta. E eu só quero que o nosso terminar não seja um desgostar. Péssimo. Só faltou o não é você, sou eu. Ele nunca fora bom, tanto com términos quanto com inícios. Com ela, tudo havia sido diferente. Ele não a procurou. Ele não a quis. Ela correu pro ataque.

Não que eu não goste dela, tentava replicar, ainda mentalmente. É questão de ego. O valor maior está na própria conquista. Engoliu seco, para continuar. E, neste caso, o conquistado fui eu.

De certo, não formavam um casal comum. Amigos lhe perguntavam como ele conseguira uma namorada tão geniosa. Como se eu soubesse!, pensava ele. Era tudo culpa do acaso. A festa, a bebida, a garota. Ele estava no lugar errado, na hora errada. Talvez fosse apenas uma coincidência infeliz.

Olha, lá esta ela. Bonita, do seu jeito. Birrenta, como nascera. Ela, toda. Sua?

- Você demorou. Droga, eu já disse que não gosto de esperar.

E ele não soube explicar nem como, nem o porquê. Aquela atração-repelida, olhar de fúria recolhida, o sorriso entrecortado pela bronca... Tão familiar. Tão ela. Tão sua.

Todos aqueles pensamentos se desfizeram em nuvens. Peculiarmente, ele a amava. Mesmo que não mentalmente.

sábado, 3 de outubro de 2009

O (des)amor nos tempos da gripe suína

_Me deixa ser o dono do teu coração.
_Ele já tem dono!
_Me deixa ser o gerente, então.

Foi numa festa de aniversário em que os dois se conheceram. Vi tudo. Eu estava lá vagando por entre os corredores daquele tão grande apartamento em Itapuã. A música era de carnaval antigo, desses que só se vê na televisão. Ah, só para constar, eu odeio televisão. Eu nunca apareço bem nela. Acho que ela me engorda. Voltemos ao casal:

_Olha que a gerência é cargo de grande responsabilidade!
_E olha que vê-se em mim a representação humana da confiança.
_Quero só ver.


Despiram-se dois meses mais tarde por menos de meia hora. Despiram-se e atacaram-se no estacionamento da universidade. Que vergonha! Eu estava lá acompanhando tudo, com cautela para não tocar nos dois, numa distância segura. Ele não queria porque ele era a representação humana da paciência em Salvador. Ele só queria ser gerente do coração. Eu bem que o avisei. Olha, não estranha, mas essa menina é cheia de manha. Ele pareceu ignorar-me. Adiantemos e vamos para alguns meses mais tarde.


_Olha...
_Estou olhando.
_Não é olha de olhar. É olha de escutar.
_Hã?
_Escuta.
_Estou escutando.
_Bom que esteja.
_Fala logo que eu tenho aula de Metodologia Científica.
_Estou grávida.
Ele deu o silêncio como resposta e olhou para o chão. Havia duas formigas carregando um pedaço verde de folha. As duas começaram a disputar pela insignificante folha. Ela partiu-se em duas e cada uma ficou com uma parte. O silêncio se quebrou com sua voz áspera arranhando-lhe a garganta e nadando na atmosfera:
_Tira.
A lágrima ameaçou cair do rosto caboclo da gestante. Ele repetiu:
_Tira.
Ela tentou dar-lhe um tapa. Mas o sangue não conseguiu chegar aos braços. Ele repetiu:
_Tira.
Ela não tirou. E foi aí que eu entrei.


Alguns dias depois, na maca do hospital, ela estava deitada e desacordada. O filho morto na barriga, assassinado por mim, o vilão da história segundo a televisão. Ela não tinha lá muita respiração, na verdade, estava morta. Só me lembro que também vi o genitor daquela tão nati-morta criança naquele mesmo hospital. Mas ele sobreviveu. E, uma semana depois, estava naquele mesmo apartamento em que os dois se conheceram, numa outra festa, com uma outra garota. Ah, eu odeio televisão, só para constar.

domingo, 27 de setembro de 2009

Plateia de seu próprio monólogo


Era lágrima. Ele queria ter nascido palco. Ele não queria ter nascido plateia. Mas assim ele nasceu. E tinha de carregar o fardo de ser o que ele não queria ser para satisfazer a um mundo que não a ele pertencia. Era lágrima. E a carne que o vestia era a mesma que o vinha despindo e o tornando servo de si mesmo. Tinha vergonha de ter nascido ele. Aquele rosto frio e feio e o corpo disforme não poderiam ser seu. Ou poderiam? Céus, por que sofria? Por que sofria calado? Por que não se manifestava ao mundo de água e terra, não saía e libertava-se deixando a alma voar e esvair-se? Eu não sei. E quando encontrar-me com ele, saberei dizer apenas isto: É lágrima.
A morte veio para ele como um toque de liberdade, de arrebatamento precoce - ou tardio? Morreu na avenida em horário de pico por entre vários outros cadáveres que, seguros em suas prisões individuais, dirigiam para suas casas. Talvez a morte o tenha levado para sua verdadeira casa. Sei lá...

domingo, 20 de setembro de 2009

Sobre o amargo do amor

Talvez fosse apenas o cinza dos dias ou o desequilíbrio da razão, mas quis por assim mesmo ver um amanhecer. Amanhecer, que era o perfeito oposto do entardecer que propusera outrora. Talvez fosse loucura sua ou uma simples ilusão de ótica, tudo parecia estar em par. Os cachorros roubavam ossos, as crianças corriam, os jovens namoravam. Apenas as árvores, coadjuvantes daquele filme açucarado estavam sozinhas.

Eram árvores grandes, de folhagens fartas e repletas de flores. Aparentavam estar firmadas naquele parque há décadas. Talvez fossem apenas testemunhas de amores, dores públicos - e de sua sozinhez, agora. Eram imponentes, como se dissessem que podiam sim, serem tão bonitas, mesmo que sem pares.

E enquanto todos os pares do mundo uniam-se em um coro agudo e insuportável ao coração só, ele pensou no Sol, que conhecia de perto a verdadeira solidão. Sofrido o gigante alaranjado, que tinha a distância e a natureza como inimigas.

Engoliu com pesar o suco de fruta, tão doce que acabava azeda. As árvores, sozinhas, farfalham ao sabor do vento, rindo do rapaz que dizia que jamais conheceria dos dissabores de Eros. Mal sabia ele que já estava mergulhado no amargo do amor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Treze Segundos

Avisou sua casa. Estava diferente, era-lhe familiar, mas diferente. O amarelo desbotado da fachada continuava pouco brilhoso, a relva pouco verde e a terra que consumiam os meros dois metros entre o portão e a porta de entrada continuavam no mesmo lugar. Mas tudo estava diferente. Tudo igual, mas diferente. Era como se o sol, antes brilhoso, ficasse mais amargo, mais desesperançoso, mais alaranjado. O sol alaranjado que ardia sobre sua casa, lhe incomodara, mas ele não fez nada a respeito. Deixou apenas as nuvens o cobrirem. Seu erro sempre foi esse. Deixar as nuvens do céu cobrirem o alaranjar do sol sobre o seu mundo. Podia até ser forte, mas não tinha a força necessária para devolver o brilho de verão ao Sol, seu legítimo dono. Roubara para si. E o estragara. É mágoa. E traição. Não aguentou o peso de seu coração cheio de sangue e de dúvida, e sentou-se na calçada em frente a sua casa. Jogou a moto no chão. Que importância tinha? É mágoa. Colocou os braços sobre os joelhos e olhou para o chão. Viu apenas a sujeira do concreto. Mas é melhor pensar que ele estava observando a sujeira de si mesmo. É mais viável. Treze segundos mais tarde, sem nenhuma útil e fidedigna reflexão passando pela cabeça de Joubert, apareceu sua irmã com seus olhos masoquistas sangrando por dentro e com um vestido cor-de-nada que combinava com o dia de ambos os irmãos. Joubert não olhou para trás. Sentiu a presença da menina pela atmosfera que os rondava silenciosamente. Samia ajoelhou-se por trás de seu irmão e abraçou-o pelas costas, envolvendo seus braços no pescoço de Joubert. Foi um abraço leve, mas cheio de espírito. Cairam duas lágrimas do rosto de Joub. Por algum motivo, houve o mesmo com a menina. Passaram bons minutos ali, naquela mesma posição, abraçados com o silêncio. Vez ou outra um barulho de carro passando na rua ou de um avião cruzando os ares invadia a paz dos dois. Mas o barulho era efêmero, não tinha importância. Estavam concentrados no futuro, no medo do amanhã. O desalento do sol alaranjado não era culpa de ninguém e era culpa de todo o mundo. E ninguém sabia disso. Infelizmente.

Trecho de O Sol Alaranjado,
livro de João Bertonie.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um Conto Molhado de Sangue

A objetividade do noivo a assustava; queria tudo para ontem, almejava pôr as turbinas na frente do avião. A noiva teimava: "Só depois do casamento, já disse". Todos comentavam a saliência daquele noivo, por mais que aquilo, em pleno século XXI, fosse comum. Ora, quem mandou-a noivar-se com um volúvel daqueles? O pai, rigoroso aos costumes evangélicos, advertira: "Ele é do mundo, minha filha, ele é um mundano!", mas de nada adiantou. Ela não resistira àqueles olhos oblíquos, àquela voz com o sedutivo sotaque carioca, àqueles versos declamados em forma de atitudes. Mas as atitudes progrediram (ou regrediram) e agora estavam cheias das secundárias intenções. Euforia era o sinônimo daquela noiva. Fizeram de tudo para amenizar o constrangimento da pobre. Nem adiantar a data da boda dera certo: as insinuações do noivo foram tamanhas que ela teve de ceder aos seus caprichos; dera a si àquele que um dia seria seu esposo.

Estavam todos afoitos com o casório; faltavam apenas exatos trinta minutos para que as duas almas enfim tornassem-se um só espírito. O barulho do vai-e-vem de pernas naqueles corredores ("pra quê tanta perna, meu Deus?") foi de repente cessado. Súbito, um grito de dor preencheu o vazio daquele apartamento. Todos correram para o quarto da noivinha; era de lá que veio o estrondo de voz humana. Tirara a noiva seus olhos com o pente fino que não usava mais devido aos caracois de seus cabelos. Estava vestida de noiva, claro, e em seu farto colo estava escrito de batom: "Não sou pura, mas quero ser enterrada assim!".


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Circo...

Súbito, arrepiou-se. Sentiu no corpo uma leveza estranha, como se voltasse a infância, como se estivesse num circo. Sim, num circo. Lembrara do dia que a infância ainda existia, quando vivia distante das máscaras de oxigênio que eram de uso obrigatório nas ruas da cidade, da neblina que invadia as casas e corroía os pulmões, dos constantes assaltos, da realidade da vida. Lembrara do circo. E sorrira. Porque o circo, na época em que a humanidade ainda tinha suas chances, era um parêntesis do mundo, uma tenda colorida onde o passado e o presente se encontravam e provocavam furiosas batidas de coração seguidas de vários risos e sorrisos abertos. Lembrara dos malabarismos extraordinários e das contorcionistas que, com toda a certeza de uma criança, não tinham ossos. Meu Deus, e o que eram mulheres que carregavam em seus ombros mais de duas famílias de palhaços? Ah, os palhaços. As piadas silenciosas, as maquiagens borradas com as lágrimas que saíam involuntariamente, as ingênuas e escandalosas brincadeiras. E os engolidores de fogo? Como seria a sensação que tinha quando o fogo adentrava seu corpo e depois saía furiosamente como uma fênix liberta? E, por fim, o espetáculo acaba numa escuridão toda escura, vinda depois dos aplausos de aprovação. E vai-se o circo que não volta mais.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Resignação

A senhorinha não saía da casa. O rapaz começava a inquietar-se. Diacho de demora! Se não precisasse tanto deste dinheiro, a mandaria pro inferno e sairia pra farrear. Ah, imaginação humana! Falar de como sua vida poderia ser o fazia pensar em outras vidas de outros alguéns, realidades tão distantes da sua.

Levantou-se do banco do carro, pois ouvira barulho de passos. A senhorinha vinha tão diferente. Aqueles anos de internato fizeram-lhe muito bem, pensou timidamente. Vinha com as bochechas coradas, o sorriso de anjo. Ela era um anjo. E ele, apenas um medíocre empregado. Baixou a cabeça.

- Fez boa viagem, senhora?
- Fiz sim, obrigado por perguntar. O moço é o filho da sinhá Nastácia?

Congelou por dois segundos. Ela lembrara dele, o garoto que correra atrás da senhora-menina - e longe de ter toda aquela educação, ressaltou mentalmente -, dos pés elameados por estar sempre na baia, cuidando dos animais. Não que fossem muitos os momentos seus; vissem-na em sua companhia e era um peão correr, contar pro patrão e este dizer ao seu pai, tão perdido em sua subordinação, que cuidasse daquele preto retinto do seu filho, se não quisesse perdê-lo. O pai obedecia, temeroso do futuro.

- Sou sim.
- Faz tanto tempo que não venho da capital que até estranho este ar leve de se respirar. Nem lembrava da falta que sinto cada vez que disto desta cidadezinha esquecida do mundo.

Ainda estranhava a ausência do ruído dos carros, doas passantes apressados e alheios. Largar a capital, tão cosmopolita, para voltar para "aquele canto dos esquecidos", como diria sua mãe, era um desaforo. Porém, assim quis. Vivera durante muito tempo sob as ordens dos pais. Queria viver apenas sobre o comando de si.

- Seus pais não estão nada satisfeitos de terem a senhora aqui.
- Sei disso. Não precisa me chamar de senhorinha. Pelo menos não me chamava assim quando gritava "sua choramingas!"

Ele corou. Não esperava que ela, moça feita, lembrasse dos desvarios infantis. Acreditava que agora, estudada, só fosse comentar da capital, das artes. Da política, não - seu pai iria à loucura se ela desatasse a comentar de como fechava-se o circo na capital.

Ele ficara mais gentil agora crescido, pensava ela em seu íntimo. Os tempos de baia ficaram em algum passado esquecido. As feições de moleque também estavam mais sutis e ela dizia, somente para si, que ele ficara mais bonito do que qualquer rapaz que vira nestes anos. Dissesse isso para qualquer um e ouviria um sermão de horas. Como ela, filha de um dos cafeicultores mais poderosos da região poderia querer qualquer coisa com aquele preto?

Entraram no carro e a conversa cessou. Ele olhava para a estrada esbarrancada, cheia de pedregulhos. Ele estava em pedregulhos. Não imaginava que vê-la novamente o deixaria assim.

Ela usava os pulos do carro como desculpa para seu tamanho desconforto. Admirava-o, quando tinha certeza que não era notada; e se fosse, o que diria? A sociedade não estava pronta para ele, nem para um nós, que se existisse, causaria tamanho estranhamento. O pai a deserdaria sem mais pensar; a mãe faria novenas para que a sua pequena recobrasse o juízo. Ele iria embora com o peso da culpa nas costas.

O carro parou, arrancando-a de sua divagação. A casa, grande e plana, lembrou sua vida. O comando de si era um desejo inatingível. A sociedade era rude, a realidade, imutável. Sua vida era uma linha reta, a qual não deveria sair um milímetro do planejado. Este era o mundo. Esta era ela.

sábado, 29 de agosto de 2009

Flor de Fel

Morrera. Não a morte que apodrece as carnes e expulsa do corpo o espírito, mas a verdadeira morte. Era bela até aquela morta viva. Rezava sem fé todos os dias a Nossa Senhora de Copacabana, mas, socialmente, dizia-se ateia.
Era uma manhã de um domingo de verão. Abria as cortinas. Uma lágrima caiu dos olhos mortos. Duas lágrimas, contou. Depois da décima oitava, parou de contá-las. Regara o rosto pálido. No calçadão, uma família, que poderia ter sido a sua, caminhava de mãos dadas. Ele fazia o papel do pai e do marido naquela esplendorosa paisagem. Ele, logo ele. Lembrava de um dos seus encontros diários: “Me fale a verdade, querida, o que sou para você?”. “Você é meu coração”, respondia ela, inocente. Não tardou muito para que seu coração fosse embora. O horizonte o fascinava; era um homem do mundo, de sangue inconstante. Agora trocava o mundo para tornar-se um cidadão de família. Cínico, repetia, cínico...
Desde então cultivava uma flor de fel. Amigos e parentes a aconselhavam a substituí-la por uma de mel. Rimava até! Mas eram rudemente ignorados. Ela gostava de sua flor de fel; achava-a elegante, fidedigna. Os amigos estranhavam, mas tratavam de acostumar-se. Deleitava-se em seu fel. E é claro que omitia isso até a morte numa entrevista de emprego. Mas ainda carregava consigo um resto de esperança. Esperança de ter esperança. Um dia teria. Ou não. O fato é que fora traída pelo seu coração, pela vida e por si própria. Ambos uns hereges desprezíveis. E a flor de fel continuava sempre e sempre lá, esperando o momento certo de atacá-la e entorpecê-la.
Olhou-se no espelho. Gostava do que via, mas não era recíproco. Sua imagem refletida a olhava com repugnância e desprezo. Iniciou-se um debate injusto entre a mulher e seu reflexo. Na verdade, todos os dias as duas brigavam. O reflexo apontava falhas, pontos fracos da mulher. Ria dela. Se derrotada, ela não se daria ao trabalho de incomodá-lo novamente o buscando no espelho.
Esqueceu o tenebroso espelho e foi passear. Pulava só nas cores escuras; o negro a atraía muito. Súbito parou. Pasmou-se. Uma rosa brotara no asfalto.
Mas a flor de fel continuava lá. Quietinha, mas continuava.
Acontece que no dia seguinte foi encontrada morta, de bruços em frente ao espelho. A flor de fel tinha medo da rosa do calçadão; tratou logo de estrangular a pobre mulher. A propósito, ela já estava morta, não fazia a mínima diferença. Morreu com os ossos de fora, tentando sair daquele vil corpo. Morreu sem sangue e sem coração. Custa dizer que ela era anoréxica? Não, acho que não...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A Terceira Perna

Era coxa a noviça, tinha que andar com três pernas. Sofria o caos por isso; quem respeitaria uma noviça manca que andava com uma bengala, afinal? Queria correr, jogar futebol como todas as outras, mas a juventude lhe fora tirada para dar espaço à terceira perna. Odiava a terceira perna. A insultava todas as noites, quando a colocava ao lado da cama, antes de rezar para algum desses não muito poucos santos que existem por aí e pedir perdão a Deus pelos palavrões pronunciados. Odiava igualmente o seu corpo deficiente; chegara a açoitá-lo uma vez, mas a dor foi forte, não o fez mais. Ia diariamente dar sua contribuição à humanidade nos campos de concentra... creches nas comunidades carentes do Rio. Ali fazia qualquer diferença que fosse; sentia-se mais útil que lendo os intermináveis versículos de uma Bíblia incompleta. Era ‘simpatizada’ com diversos traficantes, o que adiantava seu trabalho. Numa dessas idas e vindas de ônibus da vida, a noviça coxa esbarrou-se num rapaz que também tinha uma terceira perna. Ele usava óculos negros como a noite e sua terceira perna era bonita, elegante e igualmente negra. Ao aproximar-se, descobriu que ele era cego:

_Ô, tens olhos e não vê?
_Sim! _ respondeu-lhe num sorriso de propaganda de creme dental.

Deste dia em diante, punha-se a conversar com o cego numa frequência assustadora. Num dia discutiram política, sociedade e economia universal. No outro conversaram de Sócrates, Platão, Aristóteles, Cristo à Shakespeare, Cervantes, Machado, Clarice Lispector e Jane Austen. No outro falavam de televisão, rádio, jornais, revistas e internet. E já no outro não tinham mais o que conversar; começaram a gaguejar e falar cada um sobre o si, sobre o mais íntimo do seu eu e sobre sua terceira perna. Já na quinquagésima nona conversa no mesmo ônibus de sempre, não viram outra saída daquele ciclo eterno de bate-papos senão se casarem. Uniram-se então em matrimônio eterno enquanto dure a coxa e o cego. Deus os perdoaria; eram inocentes e ingênuos nessa vida, para eles havia perdão e bênção.

A coxa continuou coxa, claro, mas passou a amar sua terceira perna, seguindo o exemplo do marido. A beijava e a punha ao lado da do seu esposo, gostava de vê-las juntas, uma inclinada sobre a outra, mostrando-se atenciosa e apaixonada. Depois do sétimo filho, a coxa levou o seu marido para fazer a vasectomia. Coitado, nunca fizera cirurgia alguma antes. Hoje eles vão muito bem, obrigado! O cego agora tem alguém para guiá-lo além de sua terceira perna, e a coxa tem os óculos escuros que tanto almejava. Nossa Senhora de-Alguma-Coisa olha torto para ela, mas, em resposta, a coxa dá de ombros, guia seu marido e tudo vai bem.